Acaso
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Acaso

Aconteceu. Depois da separação a casa na beira do lago tinha um ar totalmente diferente. Não era mais o ponto de retorno e o resultado de um projeto que eu tinha criado para viver o grande amor. Para, de forma silenciosa, construir um tempo de sol e primavera com a mulher que eu amava tanto.

A casa não guardava mais os risos e as histórias do passado. As dores iam se aquietando e o que antes era silêncio virou festa. Os amigos voltavam, era como se de repente a liberdade tivesse retornado e as comemorações não podiam parar.

Entravam pela minha vida pessoas novas. Mulheres, cada vez mais mulheres, meninas querendo ser mulheres, amigos trazendo como troféus aquelas conquistas e, bem-intencionados, me dando de presente peitos e bundas estranhos sem perguntar sequer se eu gostava ou não. Mas era parte da festa da liberdade mostrar que não havia tristezas nem remorsos que pudessem resistir àquilo tudo.

E as variantes eram fantásticas. Uma feijoada com casais e umas convidadas intelectuais, cheias de boa intenção, fazendo questão de mostrar a inteligência antes dos peitos. Um passeio de barco com meninas de programa que vinham pela festa, pelo dinheiro e pelo segredo, porque afinal esta era uma ilha e nós já as conhecíamos todas de outros lugares.

Desde a academia de ginástica até a balada barulhenta elas estavam sempre lá. Juravam que nunca tinham feito aquilo, mas afinal as bolsinhas de marca, os sapatinhos novos, os vestidos atraentes eram cada vez mais caros. Faziam questão de afirmar que só estavam ali porque era com pessoas como nós e que era a primeira vez. Com champanhe e muita alegria comemorávamos esse batismo e, apesar de ainda estarmos na primavera, fazíamos todos os dias serem verão e, ainda por cima, parecerem sábado.

Meu irmão, o poetinha Vinícius, devia estar se remexendo na tumba arrependido de ter bebido tanto e não ter esperado esta minha separação. Mas não podia ter remorsos, me lembro de quando ele se separou da Jesus em Salvador. Jesus era uma mulata de um metro e oitenta, tudo certo, cheirando a festa, sempre sorridente, tão generosa que sempre tinha uma parte da roupa caindo, ou era a blusa, e aí aparecia um peito todo torneado e da mesma cor dourada de seu corpo, ou o short curtinho que ia descendo e quase revelando a bunda mais famosa da Bahia.

Tinha sido o oitavo casamento do poeta e como sempre ele jurara a todos nós que seria o último.
─ Casar nunca mais! - ele repetia.

Aprendi com todas que a última tem que vir de nossas origens e nossas origens são africanas.

Uma tarde, lá por Itapoã, depois de uma praia de sol e muita caipirinha, quando ia anoitecendo, Jesus me pegou pela mão e, como se fosse o momento mais importante de nossas vidas, perto de um daqueles coqueiros que só crescem na Bahia, tirou o quase fio dental e mostrou uma pequena tatuagem que acabara de fazer. Ah, esqueci-me de contar, Jesus tinha um Jesus tatuado na bunda esquerda, não era grande, nem tinha cara de sofrimento, claro que não podia ter, estando naquele lugar, mas parecia com os jesuses dos santinhos, apenas sorridente, como dizendo que afinal tudo tinha valido a pena para terminar naquele lugar sagrado, bunda de mulata baiana.

Pois é, ela solenemente me mostrou em primeira mão que no lugar mais oculto daquela bunda maravilhosa ela havia mudado o nome de Jesus e escrito letra a letra o novo nome dele. Vinícius.

Mas mesmo assim, tendo substituído Jesus no paraíso e tudo, chegando a hora, o poeta se separou e me intimou a ir para perto dele.

 ─ Só você pode me entender, você já passou por isso, no final a culpa é nossa, nos entregamos por inteiro e depois que elas levaram tudo, temos que nos reconstruir.

Lá fui eu para Itapoã, comer caranguejo e acarajé, beber de tarde, de manhã, de noite e de madrugada toda a amargura da separação e fazer as festas necessárias para afugentar a tristeza.

As festas tinham que ter música, poesia, putas, mulheres sérias e as candidatas a nova esposa. Como eu tinha me separado também, viramos mercadoria dupla e não existe festa sem amigos.

O melhor amigo tem que estar próximo. Afinal ele era aquele que a mulher casada, mesmo sem gostar, tem de aceitar ter perto do marido, afinal é o melhor amigo dele, mas a esposa torce para que ele quebre a perna ou pegue febre alta ou ainda um feitiço qualquer a fim de não estar disponível para as farras proibidas e perigosas.

E tínhamos ainda o nosso segredo de guerra. Quando a festa não engrenava ou as mulheres ficavam difíceis, fazendo aquele ar doce cheio de promessas, mas dizendo não, no final trazíamos Dorival Caymmi e aí tudo mudava.

O velho com aquele vozeirão, a seriedade de um só casamento e contando que só tivera uma única mulher na vida, a sua mulher, e entoando “Marina morena Marina...”, elas amoleciam, acreditavam em nós e conseguíamos manter mais uma noite com uma princesa na cama e acordar acompanhados, o que era de lei. “Homem que se separa e acorda sozinho está amargando desgraça e envergonhando a raça”, palavras do poeta ditas em voz alta e com um olhar de rancor, quase como cachorro de mau humor.

E o luto da separação tinha solenidades e acontecimentos obrigatórios. Era quase como a abertura do parlamento inglês. Se todos os passos não fossem seguidos corretamente, o luto não valia. Assim tínhamos a obrigatoriedade de três grandes bebedeiras. A primeira era a da angústia e da incompreensão, durava de dois a três dias e largávamos a falar mal dela, só víamos defeitos naquela mulher e deixávamos o rancor e a raiva dominarem.

─ Imagina só que me casei com isso... - E por aí ia a lista de críticas, maledicências e até palavras de baixo calão.

A segunda durava mais, podia durar até quatro dias e era a da saudade. Voltava o coração a comandar e as palavras se adoçavam, os gestos eram mais contidos, a música mais triste e só lembrávamos os grandes momentos. Até dávamos umas gargalhadas inesperadas, quando as recordações ajudavam, e até falávamos de sexo com carinho. Muitas vezes uma lágrima presa se desprendia e chorávamos a mulher perdida. A bunda voltava a ser bonita, a celulite era esquecida, os peitos inigualáveis e perdoávamos todos os seus atos de bruxaria. Era uma bebedeira regada a Chico Buarque e Maria Betânia e o orgulho não existia mais.

Acabávamos fazendo umas poesias e se havia músico por perto, virava canção e até podia acabar cantada no Brasil inteiro. Dividíamos a nossa saudade com o mundo e assim enterrávamos a distância. Essa bebedeira é uma época de muitas mulheres. Elas gostam de homem perdido, curtindo grande amor e aceitando de coração aberto que macho que é macho tem saudade de mulher.

Até as mulheres pagas cobravam menos neste período, davam abatimento para levantar o coração e, quando surgiam as poesias e as músicas, se ofereciam de graça pelo prazer da eternidade.

A terceira bebedeira era a do esquecimento, essa era em tom de balada e já acontecia quando o coração começava a se apaixonar de novo. O poetinha me chamava de barão, dizia que eu não perdia a classe nunca e assim luto que se preza tinha que ter um baderneiro perto, daqueles que dizem palavrão, passam a mão na bunda das mulheres e até discutem preço com puta, e não respeitam nem mulher casada ou acompanhada, mesmo se bem acompanhada.

Depois dessa vinha a fase do amor, voltavam os sorrisos, os telefonemas apaixonados, a escolha ficava difícil entre as mulheres que já tinham vaga no coração e as inesperadas que apareciam de repente para tornar a escolha mais difícil.

Mas como tudo que é natural acabávamos entregando o coração a uma delas, nos escondíamos das outras e quando notávamos estávamos vivendo um grande amor.

A vida passava a ter sentido, os dias eram mais azuis, o tempo passava depressa e achávamos graça até em piada velha, daquelas que já tínhamos ouvido mais de 863 vezes. Não reclamávamos dos serviços e até achávamos que os baianos eram rápidos. Fila de banco era como entrada para show de Caetano, todo o mundo rindo.

E começava tudo de novo, dores trocadas por amores até outro ciclo do adeus. Sabíamos que um dia iria aparecer a mulher ideal, aquela que nunca mais deixaria a solidão e a dor atormentarem o coração e nos tornaríamos todos iguais a Dorival Caymmi, homens de uma mulher só, em nosso caso, a última.

Mas vamos voltar à minha história.

Como o poetinha já tinha partido para outra, eram amigos novos que faziam as solenidades necessárias. As bebedeiras eram substituídas por jantares sofisticados, almoços ao cair da tarde, passeios de barco em tardes de sol.

E todo dia apareciam programas e mulheres, algumas interessantes, outras menos interessantes, eventualmente uma chata - ninguém escapa -mas eram mulheres e mereciam nosso respeita, afeto e muito carinho.

A palavra tinha que ser sempre gentil e o gesto carinhoso, afinal elas eram o que de mais bonito existia no mundo, mesmo as que não sabiam falar, mas sabiam andar como ninguém.

Com o tempo o gosto ficava mais sofisticado e tínhamos que abandonar algumas, esquecer outras, cumprir a ordem de nunca acordar só, mas tentar não acordar arrependido. Afinal só se acorda uma vez por dia, exceto em dias de ressaca brava em que se acaba acordando a toda a hora e não dormindo nunca.

 

É também a época das maravilhosas surpresas. Mulheres que chegam de mansinho e vão iluminando o coração e fazendo bater mais depressa a esperança.

Às vezes é a namorada do amigo e respeito é necessário, outra vez é a moça de outra terra que vem com ar sincero, olhar cheio de força e coragem e a ilha começa a ficar pequena e dá aquela saudade quando ela vai embora, às vezes sem saber que deixou tanta lembrança, lembrança bonita.

Voltam os dias de solidão pela casa grande, tempo para pensar, chorar as dores da partida e dores antigas que só os filhos perto e os olhares amigos conseguem aquietar.

Mas como sempre o ciclo recomeça e vamos, sem querer e até sem saber direito por que, esquecendo nossos pensamentos numa só pessoa e deixando a vida chegar mais uma vez.

E como tudo que se escolhe vai virando único, descobrimos uma ternura nova, descobrimos afinal que alguém também nos quer, às vezes sem saber, mas descobrimos sobretudo que o amor ainda existe e que as festas vão ficando iluminadas quando a pessoa mais querida está perto e ficam mais aborrecidas e até insuportáveis quando a pessoa mais querida não está.

A ex-mulher amada se perde nas lembranças, eventualmente vira amiga, quase sempre vira apenas memória, e até as referências significativas vão se arquivando no inevitável adeus ao que passou. Volta o tempo da conquista, voltamos a ser quixotes destruindo moinhos, inseguros até com o que vamos falar e nesta época de comunicação imediata e global ansiamos por um e-mail, uma mensagem no Facebook ou um telefonema redentor.

Já tive amigo que nessa hora se deu conta de que a ex-mulher era a mulher nova por quem ele ansiava e foi à luta para a reconquista. Mas é difícil, tem de ser mulher diferente, reconquista é coisa de quem está enfeitiçado e não descobriu.

Fui assim deixando o tempo me levar, o tempo estava curto para tanta novidade, por uma dessas coincidências que só a solidão explica, voltei a escrever, a minha editora acordou e ensaiávamos um novo livro, até uma revista de mulheres maravilhosas ia publicar um conto de memórias minhas com o poetinha, sobre aquele Rio de Janeiro que, na época, era o recreio do paraíso.

A música voltava devagar, o piano passava a ser companheiro diário e até reclamava de ter de trabalhar tanto. As viagens tinham novo sabor e cheiro, a liberdade já tinha substituído a saudade e as dores iam se aquietando devagar e gentilmente.

Como não podia deixar de ser, foi chegando de mansinho o gosto de amar e, nessa hora em que a felicidade e a esperança voltavam, vinha sempre a pergunta.

─ Você está com uma cara nova, está ótimo, que é isso homem, estreando namorada? Onde conheceu?

E a resposta, que resposta dar?

─ Foi por acaso, aliás o acaso é o maior aliado do amor, ele traz o que você não espera, aliás ele só traz o que você não espera e, por isso, é fundamental.

E terminava dizendo o que tenho certeza que o poetinha diria:
─ Homem, pensa bem, sem acaso não existe amor, só existe repetição.
─ Como você descobriu isso? - perguntava incrédulo o que não sabia amar.
─ Por acaso, respondi.

 

Max Gonçalves



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